Quando eu tinha 10 anos, eu não
entendia porque escrevia cadernos de perguntas para meus colegas responderem e
nem porque escrevia contos e poesias e desenhava flores nos cadernos e
colecionava figurinhas de álbuns de televisão e esporte.
Aos 11, Dona Janete, a professora de Educação Artística , sardenta, gordinha e com seu cabelo cor de
fogo pediu um desenho à turma. A pergunta era: Onde você queria estar nesse
momento?
Todos meus colegas desenharam camas, ventiladores, porque queriam
estar dormindo. Eu? Eu desenhei o Pão de açúcar com os bondinhos indo e vindo e
uma asa delta bailando no ar. Dona Janete, e me olhou surpresa e
disse:
- Menina,
você sonha alto!
Depois eu mostrei pra ela outro desenho: Era uma árvore cheia de
frutos, mas essa árvore tinha uma face e ela cantava e eu desenhei as notas
musicais saindo da boca daquela árvore.
Dona Janete me olhou e pensou de novo: o que será que essa menina
vai ser quando crescer? Bondinho, asa delta, Pão de açúcar, árvore que fala e
que canta, que profissão ela terá que pode incluir tudo isso?
A resposta era tão fácil e foi
se descortinando ao longo dos anos
Aos 12, eu ganhei um daqueles gravadores grandes, que a
gente levava a tira colo, com aquelas teclas duras e as fitas cassetes que eu
virava de um lado para o outro. Gravava, gravava e gravava tudo. Escrevia,
escrevia e escrevia tudo tanto no caderno com na velha verde máquina portátil
de datilografia.
Minha mãe queria que eu fosse médica, médica pediatra, mas eu
brincava com o estetoscópio da boneca e largava de mão pra ouvir rádio, gravar
novelas na Tv, músicas e datilografar muitos textos e poesias.
Ah,
Dona Janete, minha saudosa professora de Educação Artística. O que eu deveria
ser quando crescer?
Talvez professora, minha
primeira tentativa.
Talvez,
talvez, talvez jornalista
Seria
isso Dona Janete?
Estariam explicados os
desenhos? O Pão de Açúcar, a asa delta e a árvore cantora?
Claro, Dona Janete.
Menina, você sonha alto.
O
jornalista sonha alto. Ele pode estar no topo do Pão de Açúcar, voando na asa
delta e vendo a árvore falar e cantar, porque tudo é notícia, tudo é
informação. Tudo é Comunicação.
Jornalista é o curioso, o amado,
o odiado, o amante dos livros e das madrugadas.
O dono da pauta do seu próprio
destino.
O amigo dos políticos, ou o
terror deles.
O porta voz da sociedade e
da comunidade lá do morro, onde falta tudo.
Ele é a voz da Cultura, da Música, da Economia, do Turismo, da Gastronomia,
da vida diária do cidadão, da Policia, Bandido, da Guerra urbana e civil.
Da lei e da clandestinidade. Jornalista quer a verdade, quer a fonte dos fatos
apurados, gravados, esmiuçados, investigados e muitas vezes cortados na edição
A sede da justiça, do dever cumprido, do fechamento do jornal,
sofrido, das noites de sono perdidas e da cerveja com os amigos.
Esse é
o jornalista, atento, detalhista, que faz do lead uma história de conquista
Que conhece vários personagens e enfrenta situações da alegria a
dor e pode ouvir e ver suas matérias se transformarem em grandes
histórias, que a humanidade fez questão de deixar registrada nas suas letras
cheias de garranchos de tanto escrever rápido.
Ah, Dona Janete, se eu continuasse professora, minha letra ia
sempre ficar redondinha, bonitinha, mas ela perdeu sua graciosidade nos
garranchos frenéticos do jornalismo e meus dedos ficaram com tendinite dos
teclados do computador e meu olhar focou nos óculos e todos os meus
desenhos de infância foram parar na lente da minha máquina fotográfica.
Pois é
Dona Janete, eu cresci e sonhei alto.
Eu
cresci e fui jornalista.
Essa
é minha homenagem ao jornalista Rujany Martins e a todos os jornalistas que
fazem a imprensa mais digna, não aos da imprensa marron, mas o jornalismo
de verdade, que existe muito ainda, apesar dos pesares e que persiste ao longo
das décadas e mudanças que acontecem no nosso país. Eu encerro com a frase do
jornalista, escritor, sociólogo
e ativista político peruano José Carlos Mariátegui que diz o
seguinte.
O jornalista deve ser um
combatente, não um espectador"
(José
Carlos Mariátegui)